Dois Papas e o legado espiritual de Papa Francisco no cinema

Por Gean Gabriel 




Tem filmes que parecem conversar direto com a gente — não pela ação, mas pelo silêncio, pelos olhares, pelos diálogos que não subestimam a inteligência de quem assiste. Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles e disponível na Netflix é um desses filmes. Lembro que assisti por causa do nome do Fernando Meirelles, um diretor que já me despertava respeito e afeto desde Cidade de Deus. Mas o que encontrei foi mais do que uma boa direção: foi um filme calmo, intenso e surpreendentemente poderoso.

E agora, com a recente morte do Papa Francisco, tudo isso volta à tona de um jeito ainda mais profundo. Não sou religioso, não cresci com fé em santos ou missas — mas acredito em Deus, e acredito que certos acontecimentos nos colocam diante do que é inevitável: a finitude. A morte do Papa, alguém que parecia tão próximo mesmo tão distante, me fez pensar em como tudo passa, em como até o mais alto representante da Igreja é, no fim das contas, um ser humano. E talvez por isso mesmo Dois Papas funcione tão bem: porque ele não mostra santos, mostra homens tentando encontrar sentido — e perdão — no meio do caos.

Nunca fui íntimo da figura de Francisco na vida real. Sei que ele foi importante, que causou controvérsia e trouxe mudanças. Mas no filme, o que me tocou foi a maneira como ele — interpretado por Jonathan Pryce — trazia dúvida, compaixão e até um certo humor pra dentro dos muros do Vaticano. Era quase um espelho do mundo fora daquelas paredes. E num tempo em que tudo parece tão dividido, tão rígido, ver dois homens com visões opostas tentando se ouvir já é quase revolucionário.

Com a morte de Papa Francisco, talvez seja hora de revisitar esse filme. Não apenas como homenagem, mas como reflexão. Sobre o mundo, sobre a fé (ou a ausência dela), e sobre como o cinema ainda consegue nos sacudir por dentro sem levantar a voz.

O retrato de Papa Francisco no filme Dois Papas

Em Dois Papas, o Papa Francisco — ainda Cardeal Jorge Mario Bergoglio — é retratado com uma humanidade que raramente se vê no cinema quando o assunto é o Vaticano. A figura papal, geralmente cercada por um manto de mistério, hierarquia e infalibilidade, aqui se torna alguém com dúvidas reais, feridas abertas e um desejo genuíno de diálogo. É um retrato que emociona justamente porque desce o papa do altar e o coloca ao nosso lado, em um banco de jardim, tomando Fanta e falando de futebol.

Interpretado magistralmente por Jonathan Pryce, Francisco aparece como um homem em busca de reconciliação — consigo mesmo, com a instituição que serve, e com um mundo que parece ter se afastado da compaixão. Ele não é idealizado, nem demonizado. É alguém que carrega culpa, especialmente pelo seu passado durante a ditadura militar na Argentina, mas que tenta caminhar em direção à luz sem negar a própria sombra.

A atuação de Pryce é contida e sensível. Cada expressão, cada silêncio, parece carregar décadas de peso moral e espiritual. Ele interpreta não um santo, mas um ser humano em transformação — e talvez seja esse o maior acerto do filme. Em vez de nos oferecer respostas, Francisco nos convida a refletir. Sobre a fé, sobre o perdão, sobre a possibilidade de mudança mesmo depois de uma vida inteira.

Num mundo em que líderes religiosos muitas vezes soam distantes ou inacessíveis, Dois Papas nos lembra que a verdadeira força espiritual pode estar justamente na vulnerabilidade. E agora, com a morte de Papa Francisco, esse retrato cinematográfico se torna ainda mais significativo. Ele sobrevive como um testamento não à perfeição, mas à coragem de tentar ser melhor — mesmo quando o tempo parece já ter passado.


Diálogos como ferramenta espiritual em Dois Papas

Mais do que qualquer ação ou reviravolta, Dois Papas é sustentado por suas conversas. E não são conversas qualquer. São diálogos que vibram entre o teológico e o humano, entre a leveza do cotidiano e o peso existencial de decisões que moldam a história. É nesse vai-e-vem que o filme encontra sua força, nos lembrando que grandes transformações muitas vezes nascem de escutas pacientes e palavras bem colocadas.

A maior parte do tempo estamos com dois homens conversando — o Papa Bento XVI e o então Cardeal Bergoglio — e mesmo assim não há tédio. Isso porque o roteiro (escrito por Anthony McCarten) sabe que uma boa fala carrega mais impacto do que mil efeitos especiais. As falas são carregadas de hesitação, culpa, ironia, carinho. Em vez de tentar convencer o outro, eles se desnudam — e nisso está a beleza.

É raro ver um filme que trate fé e religião com tanta sensibilidade sem cair em doutrinas ou clichês. As dúvidas de Bergoglio, os medos de Bento, os silêncios entre uma frase e outra — tudo isso se torna eloquente. São diálogos que nos fazem pensar na morte, na falibilidade humana, no que significa liderar com humildade num mundo onde todo mundo quer ter razão.

Num tempo onde ninguém parece ouvir ninguém, assistir a Dois Papas é quase um exercício de esperança. Mostra que, mesmo em posições tão altas e com ideias tão diferentes, ainda é possível escutar, rir, confessar, perdoar. E talvez seja justamente isso que o mundo mais precise — de menos gritos e mais conversas verdadeiras.


Fernando Meirelles e o olhar brasileiro sobre o Vaticano


É impossível falar de Dois Papas sem destacar a assinatura discreta e poderosa de Fernando Meirelles. O diretor brasileiro — conhecido por obras como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel — empresta ao filme um olhar raro: respeitoso, mas não reverente; íntimo, mas jamais invasivo. Sua direção é o que torna possível transformar um longa, que em sua maior parte é apenas dois homens conversando, em uma experiência visualmente rica, ritmada e espiritualmente tocante.

Meirelles não se contenta em apenas registrar os diálogos — ele os enquadra com delicadeza, contrastando a rigidez das paredes vaticanas com os gestos humanos, frágeis e muitas vezes silenciosos, de seus protagonistas. As lentes passeiam pelo Vaticano com uma câmera quase documental, mas sempre poética. Há uma brasilidade sutil ali: na luz quente, nos momentos de humor espontâneo, e, principalmente, na maneira como o filme permite que a humanidade fale mais alto que a hierarquia.

Ao colocar a câmera tão próxima de figuras tão distantes do nosso cotidiano, Meirelles nos lembra que por trás da batina e da pompa existe carne, dúvida, desejo de redenção. Em vários momentos, ele deixa o tempo respirar — o silêncio vira fala, o olhar carrega tensão. Tudo isso contribui para o que talvez seja o maior mérito do filme: sua capacidade de fazer o espectador se sentir próximo de uma realidade que normalmente parece inalcançável.

E há também o gesto simbólico: um cineasta brasileiro filmando o coração da Igreja Católica. É um encontro improvável, e por isso mesmo poderoso. Meirelles filma o Vaticano como quem entra com respeito, mas também com perguntas. E é talvez essa ousadia tranquila que torna Dois Papas tão inesquecível.

Bora! Aqui vai uma sugestão de conclusão emocional e reflexiva, conectando os temas centrais do artigo: morte, diálogo, fé e o legado de Francisco — com um toque pessoal, como você pediu desde o início:


Quando até os papas morrem, o que nos resta?

Assistir a Dois Papas depois da morte de Papa Francisco é como revisitar uma carta deixada por alguém que partiu, mas ainda sussurra conselhos nas entrelinhas. O filme, que já era forte, agora carrega um peso quase profético. E isso me toca profundamente, não por uma devoção religiosa, mas por algo mais simples e mais difícil de encarar: a consciência da morte.

Fernando Meirelles, com sua sensibilidade tão brasileira, fez mais do que contar uma história sobre papas. Ele revelou o quanto há de humano por trás dos dogmas. E talvez essa seja a maior herança de Francisco — no cinema e na vida real. A coragem de ser frágil, de escutar, de reconhecer limites. A humildade de rir de si mesmo, de pedir perdão, de mudar de ideia.

Se até um papa pode morrer, o que resta a nós, que somos tão pequenos? Talvez reste o mesmo que restou a Bento e a Francisco: o diálogo. A escuta. A fé — mesmo que confusa, mesmo que sem igreja. E, acima de tudo, a certeza de que a espiritualidade, quando não imposta, pode ser um abrigo contra o medo do fim.

Dois Papas não é apenas um filme sobre religião. É um filme sobre despedidas, sobre legados, sobre humanidade. E agora, mais do que nunca, é também um luto. Um luto bonito, filmado com afeto. Um luto que, paradoxalmente, nos dá um pouco de esperança.


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